22 julho 2008

ODE AO GATO

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo,
tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem
quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato quer ser só gato
e todo gato
é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,
não tem a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha
em seu contorno firme e sutil
é como a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só ranhura
para lançar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador
sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão,
nupcial sultão
do céu das telhas eróticas,
o vento do amor na intempérie
reclamas quando passas
e pousas quatro pés delicados no solo,
cheirando,
desconfiando de todo o terrestre,
porque tudo é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera
independente da casa,
arrogante vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta dos quartos,
insígnia de um desaparecido veludo,
certamente não há enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti
e pertence ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários,
tios de gatos,
companheiros,
colegas,
díscipulos
ou amigos do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei,
a vida
e seu arquipélago,
o mar
e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com os seus extrávios,
o pôr e o mesnos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.

(Navegaciones y Regresos, 1959)
Pablo Neruda

3 comentários:

Ana Lourenço disse...

Bem, deixa-me dizer-te que têm fotografias lindíssimas! A sério, adorei todos! :)

Um beijinho

Porcelain Doll disse...

Eh, eh, eh, sabes como eu sou... leio bocados... tenho ali "O Carteiro"... mas, lá está, do que conheço, gosto muuuito de Pablo Neruda... o teu Reflexo do Espectro é maravilhoso para a minha pobre alma ficar a perceber um pouco mais acerca de uma série de autores...

E, claro, como só podia ser, vindo de um homem inteligente como Pablo Neruda, é óbvio que percebe a subtileza e a inteligência felinas...

Amiga... simplesmente brutal!

;-))

Beijo

Å®t Øf £övë disse...

Pablo Neruda sempre nos presenteou com palavras fantásticas.