01 março 2008

RETRATO


O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.

Diário, vol. VI, in Poesia Completa,
de MIGUEL TORGA

21 fevereiro 2008

A Criação


SEGUNDO ANCIÃO: Os teus pés não marcam o chão. Apenas uma leva poalha digital. Nenhum caminho para te seguir. O teu alimento virá apenas por ti. A cor da terra cega-te. Desenhas círculos cegos. Tornas-te o centro cego desta terra queimada pelo sol. Uma, duas palavras são apenas pistas por entre palavras ainda longínquas.


Excerto de Carlos Alberto Machado in "Ponho palavras na minha cabeça"

13 fevereiro 2008

...assim te amo...

Soneto XVII

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.
Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.
Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

in Cien Sonetos de Amor, de Pablo Neruda

07 fevereiro 2008

O Teu Sorriso


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz lá dentro,
apetecia entrar nele,tirar a roupa,
ficar nu dentro daquele sorriso.
Correr,navegar,morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade in O Outro Nome da Terra

02 fevereiro 2008

ÁGUAS PRESAS

"O poema incrustado na pedraria
da palavra regorgita de silêncios
e convida ao garimpo ocultando o ouro
sob a aflição da água presa ao garrote
das barragens implacáveis
na serenidade da obscura madrugada"

excerto do poema O POEMA ESCREVE-SE, de José António Gonçalves

27 janeiro 2008

A Verdadeira Religião


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas
flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a
Igreja Católica
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.


Excerto da poesia de Alberto Caeiro "O Guardador de Rebanhos (1911-1912) "

13 janeiro 2008

ECCE - HOMO

"Quando eu for levantado da terra, atrairei tudo a mim". João 12:32.

ECCE - HOMO

(excertos)

I

Eu agora sou o homem

que vive para morrer.

Sou o homem que vive

porque sabe que vai morrer.

II

Eu sou um homem

A quem tiraram o cérebro

E anda agora por aí,

aos trambolhões,

tremendo arrepiadinho de frio,

Com dores na cabeça

E desejando a morte.

III

Eu sou o homem

que cresceu como todos crescem,

Amou como todos amam,

Rezou como todos rezam,

Mas não viveu como todos vivem.

VIII

Eu sou o homem que vos assegura

Que já não haverá mais miséria

No porta-bagagem,

Porque ela sentar-se-á

Ao lado das pessoas que vão no carro.

IX

Eu-sou-o-homem-que-está-aqui,

comoA-pedra-que-está-no-chão.

N. B. - A pedra só se moverá,quando alguém tropeçar nela.

Deixem-a-pedra-no-mesmo-lugar

queo-homem-deixar-se-á-ficar-ali.

XI

Cortem-lhe agora as pernas.

Os braços igualmente.

Da cabeça tirem-lhe tudo.

Os olhos é que não,

Pois que para ver miséria

É que eles são.

Armem um estrado

Num canto da rua,

Por debaixo dos beirais.

E sentem-no lá,

Nu, nuzinho.

Camisa para quê,

Se ele já não tem braços?

De que servirão as calças

Se ele já não tem pernas?

E àqueles que passarem

Mostrai-lhe o letreiro:

«ECCE HOMO»

Eis o homem ideal.

Clemente Tavares

06 janeiro 2008

Máscara

Se fuga la isla.
Y la muchacha vuelve a escalar el viento
y a descubrir la muerte del pájaro profeta.
Ahoraes el fuego sometido.
Ahoraes la carnela hojala piedra
perdidos en la fuente del tormento
como el navegante en el horror de la civilización
que purifica la caída de la noche.
Ahorala muchacha halla la máscara del infinito
y rompe el muro de la poesía.

Alejandra Pizarnik in La última inocencia (Poesía Buenos Aires, 1956. Reeditado en 1976 por Ed. botella al Mar, junto con Las aventuras perdidas)

02 janeiro 2008

EU AMO TUDO O QUE FOI

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea ,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa